Tendinite de Aquiles: gestão e retorno à corrida
Tendinite vs tendinopatia, os 3 estádios de evolução, protocolo Alfredson (alongamentos excêntricos com 25 anos de evidência), e como gerir o retorno sem recidiva.
A tendinite de Aquiles é uma das lesões mais traiçoeiras em corrida — inicia subtilmente, ignora-se durante semanas, e quando finalmente percebes que é mais do que "rigidez normal", já estás em território crónico. Este guia explica como identificar nas fases iniciais, o protocolo de tratamento com evidência científica (alongamentos excêntricos), e como gerir o retorno sem recidiva.
Anatomia rápida
O tendão de Aquiles liga os gémeos (gastrocnémio e solear) ao calcâneo. É o tendão mais forte do corpo — suporta cargas de 6-12× o peso corporal a cada passo de corrida. Também é dos mais comuns a inflamar em corredores: estima-se que 5-10 % dos corredores recreativos sofram lesão do Aquiles em algum momento.
Existem dois tipos principais:
- Tendinopatia da porção média — dor 2-6 cm acima do calcanhar. A mais comum em corredores recreativos.
- Tendinopatia insercional — dor exactamente no ponto onde o tendão se insere no calcâneo. Mais difícil de tratar, requer protocolo ligeiramente diferente.
O termo "tendinite" sugere inflamação aguda, mas a maioria dos casos crónicos é "tendinopatia" — degeneração do colagénio sem inflamação activa. O tratamento é diferente.
Como identificar nas fases iniciais
Estádio 1 (reversível em dias):
- Rigidez e ligeira dor nos primeiros passos de manhã.
- Desaparece após 5-10 minutos a andar.
- Não interfere com a corrida.
Estádio 2 (reversível em semanas):
- Dor nos primeiros minutos de corrida que melhora ao aquecer.
- Dor reaparece e piora se a corrida for longa ou intensa.
- Manhã seguinte: rigidez clara, dor à palpação do tendão.
Estádio 3 (crónico, semanas a meses):
- Dor durante toda a corrida, força redução de ritmo ou paragem.
- Tendão visivelmente espessado (palpa o lado de fora do tendão e compara com o pé saudável).
- Dor pode persistir ao caminhar.
Vai ao fisioterapeuta logo no estádio 2 se possível. Estádio 3 demora 6-12 meses a recuperar; estádio 1-2 demora 4-8 semanas.
Por que apareceu
- Aumento súbito de volume ou intensidade — adicionar séries em pista, treinos de subida, ou subir volume mais de 10-15 % em poucas semanas.
- Mudança brusca para sapatilhas de drop baixo (e.g. de drop 10 mm para 4 mm) — recruta mais o Aquiles.
- Tensão crónica nos gémeos — pessoa que passa muitas horas sentada, com gémeos encurtados, transfere stress para o tendão.
- Treinos de subida intensos — subidas íngremes carregam mais o Aquiles que terrenos planos.
- Salto de actividade — atletas que adicionam ténis, padel, basquete em paralelo com corrida.
Protocolo de tratamento
Princípio: carga gradual, não repouso absoluto
Tendinopatia não resolve com 6 semanas de descanso. Pelo contrário — descanso prolongado atrofia o tendão. O tratamento moderno é carga progressiva que estimula remodelação do colagénio.
Fase 1 (semanas 1-2): controlar a dor
- Reduz volume 30-50 % e elimina temporariamente: subidas íngremes, séries em pista, sapatilhas de drop baixo.
- Sobe drop temporariamente — calcanheiras (heel lifts) de 6-10 mm dentro das sapatilhas reduzem stress no tendão durante a fase aguda. Removes quando os exercícios excêntricos estão estabelecidos.
- Gelo 15 min após corrida.
- Massagem dos gémeos com bola ou foam roller — 5 min, 2× por dia.
Fase 2 (semanas 2-12): protocolo de Alfredson — o mais validado
O protocolo de Alfredson (alongamentos excêntricos) tem evidência científica robusta há 25 anos para tendinopatia da porção média.
- Sobe num degrau ou borda elevada com ambos os pés, calcanhares no ar.
- Tira o pé saudável, fica em equilíbrio no pé lesionado, com calcanhar no ar.
- Desce o calcanhar lentamente até abaixo do nível do degrau (4 segundos).
- Volta a subir com ambos os pés.
- Repete: 3 × 15 com perna esticada + 3 × 15 com joelho ligeiramente flectido.
- Faz isto 2 vezes por dia, todos os dias, durante 12 semanas.
Vai doer. Dor moderada (3-5/10) durante o exercício é aceitável e até desejável — significa que o tendão está a ser estimulado. Dor que persiste 24h depois do exercício significa que carregaste demasiado — reduz peso ou amplitude.
Para tendinopatia insercional, a versão modificada faz só amplitude até nível plano (não desce abaixo) — descer abaixo agrava esta variante.
Fase 3 (semanas 6+): retorno à corrida
Quando consegues fazer 3×15 do protocolo Alfredson com peso adicional (mochila com 5-10 kg) sem dor 24h depois:
- Semana 1 retorno: 30 min easy, terreno plano, 3 sessões.
- Semana 2-3: aumenta volume 10 % por semana.
- Semana 4-6: reintroduz qualidade leve (intervalos curtos, terreno plano).
- Semana 8+: reintroduz subidas e drop baixo gradualmente.
Equipamento útil
- Heel lifts (calcanheiras) — Sidas e Bauerfeind fazem versões de 6-10 mm que vão dentro das sapatilhas. ~10-25 €. Cruciais nas primeiras 2-4 semanas.
- Foam roller para gémeos. Trigger Point GRID.
- Bola de massagem para sóleo profundo. Lacrosse balls.
- Sapatilhas de drop alto em fase de retorno — Asics Cumulus, Brooks Ghost, Hoka. Evita Altra ou minimalistas durante 3 meses.
- Meias de compressão — algum benefício em fase de retorno. CEP.
Erros que prolongam tendinite
- Anti-inflamatórios prolongados. Inicialmente úteis (3-5 dias), mas em tendinopatia crónica não há inflamação activa — o problema é degenerativo. AINEs prolongados podem até atrasar remodelação.
- Repouso total prolongado. Sem estímulo, o tendão atrofia. Carga progressiva é treino.
- Saltar o protocolo Alfredson. 12 semanas, 2× por dia, sem falhar. Não há atalho.
- Mudar para sapatilhas de drop muito baixo em pleno retorno. O Aquiles fica vulnerável durante 6+ meses.
- Reintroduzir subidas demasiado cedo. Subidas íngremes são gatilho clássico de recidiva.
Quando procurar especialista
- 4 semanas de protocolo Alfredson sem qualquer melhoria.
- Dor que aumenta progressivamente apesar de redução de volume.
- Inchaço visível no tendão.
- Recidiva — segunda ou terceira vez na mesma perna no mesmo ano.
Tratamentos com evidência sólida em fisioterapia desportiva:
- Terapia por ondas de choque (ESWT) — 5-7 sessões, 60-80 % taxa de sucesso em casos crónicos.
- Injecções de PRP — plasma rico em plaquetas. Resultados mistos mas considerada em casos resistentes.
- Cirurgia — último recurso, raramente necessária. Recuperação 6-12 meses.
O Aquiles é exigente mas honesto: respeita o protocolo, recupera. Tenta atalhos, regressa em loop. Faz a paciência render durante 2-3 meses para evitar 6-12 meses de tratamento crónico. Resumo técnico no glossário.