metanoiacorrida em portugal
Calendário Run Clubs Artigos Ferramentas Manifesto
← Artigos

Plano de treino para a primeira maratona: 16 semanas, fase a fase

Da semana 1 ao taper. Quatro corridas por semana, longão progressivo, ritmos de prova, nutrição e como agir se aparecer uma lesão. Plano testado em corredores que cortaram a meta da Maratona do Porto.

Um plano de treino para a primeira maratona não é um calendário de quilometragem. É a operacionalização de uma promessa: que daqui a quatro meses, no quilómetro 32 de uma maratona em Portugal, vais saber o que estás a fazer. Este plano de 16 semanas — testado em corredores que cortaram a meta da Maratona do Porto e da EDP Maratona de Lisboa entre 3h30 e 4h45 — está dividido em quatro fases claras: base, construção, pico, e taper.

Pressupõe que já corres há pelo menos seis meses, com base de 30–40 km por semana, e que consegues correr 90 minutos sem parar. Se não estás aí, recua dois meses, faz-te à base, e só depois entra neste plano.

Filosofia do plano: poucos princípios, muita execução

Antes do calendário, três regras que vais quebrar e perceber porquê é que se chamam regras:

  • 80/20. Oitenta por cento dos teus quilómetros semanais são feitos a um ritmo em que consegues falar sem ofegar (Zona 2, ~70–80 % da frequência cardíaca máxima). Vinte por cento são intensos. Inverter esta proporção é o erro número um do corredor amador.
  • Volume bate intensidade. Para a tua primeira maratona, o número que mais importa é a quilometragem semanal e a duração da longa. Não o ritmo a que fazes os 1000s. Constrói horas a correr antes de construir watts.
  • Recuperação é treino. Os ganhos acontecem nos dias de descanso. Saltar um dia easy é, paradoxalmente, mais benéfico do que saltar um dia interval.

Estrutura semanal · 4 corridas + descanso activo

O plano usa 4 corridas por semana, mais 1–2 sessões de cross-training (bicicleta, natação, força). Está pensado para quem trabalha 40h+ por semana e tem um parceiro ou filhos. Não é um plano de 6 corridas; é um plano de execução completa.

DiaSessãoDetalhe
SegundaRecuperação5–8 km muito leve OU descanso total
TerçaIntervalado / TempoSessão de qualidade, varia por semana
QuartaEasy6–10 km confortáveis, foco em técnica
QuintaCross-training ou descansoBicicleta 60 min, natação 45 min, ou força
SextaEasy5–8 km descontraídos
SábadoDescansoCaminhada longa, mobilidade, descanso completo
DomingoLongãoA peça central do plano. Cresce ao longo do bloco.

Fase 1 · Base (semanas 1–4)

Objectivo: trazer a quilometragem semanal a 50 km e estabelecer ritmo aeróbico estável. Nada de heroísmo. O corpo está a adaptar-se à carga.

  • Semana 1. 35 km · longão 16 km · terça 6×400 m a ritmo 5K com 90 s pausa.
  • Semana 2. 40 km · longão 18 km · terça 4×800 m a ritmo 10K com 2 min pausa.
  • Semana 3. 45 km · longão 20 km · terça 20 min tempo a ritmo de meia maratona.
  • Semana 4. 35 km (descarga) · longão 16 km easy · terça 5×1000 m a ritmo 10K.

A semana 4 é uma cutback week. Reduzimos volume em 20–25 % a cada quatro semanas para permitir adaptação. Saltar este passo é a maneira mais comum de chegar à semana 12 lesionado.

Fase 2 · Construção (semanas 5–9)

O motor está montado. Agora especializamos.

  • Semana 5. 50 km · longão 22 km · terça 8×600 m a ritmo 5K.
  • Semana 6. 55 km · longão 24 km com 8 km finais a ritmo de maratona · terça tempo de 30 min.
  • Semana 7. 60 km · longão 26 km · terça 5×1200 m a ritmo 10K.
  • Semana 8. 45 km (descarga) · longão 20 km easy · terça 4×800 m + 4×400 m.
  • Semana 9. 60 km · longão 28 km com 10 km finais a ritmo de maratona · terça 6×1000 m a ritmo 10K.

A partir da semana 6, introduzimos as marathon-pace miles: blocos do longão a ritmo de prova. É aqui que o corpo aprende a economia de movimento que precisas no quilómetro 35.

Fase 3 · Pico (semanas 10–14)

Os dois maiores longões estão nestas semanas. É também aqui que treinas nutrição em corrida — é prática, não improvisação. Géis a cada 30–40 minutos, água a cada 20.

  • Semana 10. 65 km · longão 30 km com 12 km a ritmo de maratona · terça 5×1600 m a ritmo de meia.
  • Semana 11. 70 km · longão 32 km · terça 3×2000 m a ritmo de maratona.
  • Semana 12. 55 km (descarga) · longão 25 km easy · terça 8×400 m rápidos.
  • Semana 13. 70 km · longão 34 km com 16 km a ritmo de maratona · sábado meia maratona como prova de teste OU 18 km a ritmo de meia.
  • Semana 14. 65 km · longão 30 km com 18 km a ritmo de maratona · terça 5×1000 m a ritmo 10K.

O longão de 34 km é o mais longo do plano. Não corremos 42 km no treino — o custo de recuperação é maior do que o benefício, e o risco de lesão dispara.

Fase 4 · Taper (semanas 15–16)

Aqui está a parte que mais corredores estragam. O taper não é descanso. É redução controlada de volume com manutenção de intensidade. O corpo continua a precisar de stress curto para reter adaptações.

  • Semana 15. 45 km · longão 20 km com 6 km a ritmo de maratona · terça 4×1000 m a ritmo de meia.
  • Semana 16 (prova). 25 km na semana antes da prova · terça 4×400 m soltos · domingo a corrida.

Na última semana: hidrata muito (3 L/dia), come hidratos consistentemente (não apenas no jantar pré-prova), dorme 8 horas todas as noites. Evita stress novo — não experimentes sapatilhas novas, não comas pratos exóticos, não faças massagem profunda nos três dias antes.

Como calcular o teu ritmo de maratona

O método mais fiável é a fórmula de Daniels: o ritmo de maratona é aproximadamente o ritmo da tua meia maratona + 8 a 12 segundos por quilómetro. Se a tua melhor meia recente foi 1h45 (5:00/km), aponta para uma maratona em 3h45–3h50, com ritmo médio 5:10–5:15/km.

Outra forma: o ritmo de maratona é aquele a que consegues falar uma frase curta sem ofegar. Se estás a tentar, é demasiado rápido.

Nutrição em corrida e antes da prova

Na maratona, a parede aos 32 km é uma questão de glicogénio: o corpo armazena 1500–2000 kcal sob a forma de glicogénio muscular e hepático, e a maratona consome 2500–3500 kcal. Há um défice. Resolves esse défice com carga de hidratos prévia e géis em corrida.

  • 3 dias antes. Aumenta hidratos para 8–10 g/kg de peso corporal. Para 70 kg, são 560–700 g de hidratos por dia. Pão, massa, arroz, batata, fruta. Reduz fibra (vegetais crus) para evitar problemas gastrointestinais.
  • Manhã da prova. 3 horas antes: pequeno-almoço sólido com 100–150 g de hidratos (papas, pão com mel e banana, arroz com fruta). 30 minutos antes: 1 gel + 200 ml de água.
  • Em corrida. 60–90 g de hidratos por hora a partir do km 8. Significa 1 gel a cada 25–30 minutos. Treina isto nos longões — não experimentes nada novo no dia.

Em que maratonas inscrever em Portugal

Portugal tem três maratonas certificadas pela World Athletics como percursos rápidos: a EDP Maratona de Lisboa (Outubro), a Maratona do Porto (Novembro) e a Maratona da Europa em Aveiro (Abril). As três são planas, com pavimento lisíssimo. Para uma primeira maratona, recomendamos a Maratona do Porto: o percurso é icónico, a logística é boa, e o clima de Novembro (12–16 °C) é praticamente óptimo para correr a longa distância.

Verifica datas e inscreve-te no nosso calendário de maratonas.

E se aparecer uma lesão a meio do plano?

Acontece a 40 % dos corredores que fazem a primeira maratona. As regras:

  • Dor abaixo de 4/10 que melhora ao aquecer: continua, mas reduz volume 30 % na semana e adiciona dia easy.
  • Dor 4–6/10: três dias de repouso completo, gelo, depois 50 % volume.
  • Dor acima de 7/10 ou alteração da marcha: consulta um fisioterapeuta especializado em corrida. Não esperes.

Lesões mais comuns na preparação de maratona: tendinite do Aquiles, periostite tibial, síndrome da banda iliotibial, fascite plantar. Quase todas têm origem em aumento brusco de volume. Por isso é que este plano cresce 5–10 % por semana, não 20 %.

Perguntas frequentes

Quanto tempo demora a preparar uma primeira maratona?

Para um corredor que já corre 30–40 km/semana, 16 semanas é suficiente. Para quem está a começar do zero, conta com 9 a 12 meses: 4–6 meses para chegar a uma meia maratona, mais 4 meses de bloco específico para a maratona.

Posso fazer uma maratona com apenas 3 corridas por semana?

Tecnicamente sim. Confortavelmente, não. Com 3 sessões, o corpo nunca acumula a carga aeróbica necessária para a economia que precisas no quilómetro 35. O resultado é uma maratona vivida em sofrimento desproporcional. Quatro corridas é o mínimo recomendado.

Devo correr o longão a ritmo lento ou variável?

Os longões abaixo de 24 km — quase todos a ritmo Zona 2 (conversacional). A partir da semana 6, os longões grandes têm um bloco final a ritmo de maratona: começa em 6 km, cresce até 18 km na semana 14. Esta inversão (cansado a ritmo de prova) é o que mais te prepara mentalmente para o quilómetro 32.

Que ritmo cardíaco devo manter?

Em corridas easy: 70–80 % da FC máxima. Em maratona: 80–88 %. Em séries de meia maratona: 85–92 %. Em séries 5K: 90–96 %. Se não tens FC máxima medida, calcula 220 – idade como aproximação inicial.

Vale a pena contratar um treinador?

Para a primeira maratona, não é obrigatório se seguires um plano testado como este. Para tirar 10–20 minutos a uma maratona já corrida, sim — um treinador é dinheiro bem gasto. Em Portugal, taxa típica é 80–150 €/mês para acompanhamento online com plano personalizado.

Em síntese

Uma maratona prepara-se em quatro meses, mas decide-se em quatro fases. Constrói volume primeiro. Adiciona qualidade depois. Treina nutrição como treinas pace. E quando o longão começar a doer no quilómetro 28 da semana 14, lembra-te que esse é o quilómetro que está a ensinar-te a chegar ao 42 do dia da prova.

O resto é repetição. Quatro vezes por semana. Dezasseis semanas. Uma única manhã.